Category Archives: Jornalismo

Feijão Marcella

História bonita que apareceu no jornal pra fazer a gente querer virar nome de feijão também. Marcella agora dá nome a um feijão quase desaparecido, original da região da Toscana (na Itália, seu nome é sorana, também nome da cidade onde ele é plantado, feijão de origem protegida), redescoberto por um adorador de feijões da Califórnia com quem Hazan se correspondia por Facebook. E eles nunca se viram na vida.

Steve Sando virou amigo de Marcella Hazan porque tinham gostos em comum: música italiana e feijões. Seis anos atrás, Sando recebeu uma encomenda de Marcella (ele trabalha com uma rede de agricultores que plantam variedades raras da leguminosa) e um pedido de amizade pelo FB. Conversa vai, conversa vem, Sando quis saber de qual feijão a escritora mais sentia saudade. Sorana, ela respondeu – o feijão que derrete doce na boca, de pele imperceptível que, claro, pouquíssima gente conhece (nem na Itália é comum encontrá-lo, segundo o artigo do New York Times).

O empresário quis homenageá-la e correu atrás do feijão para plantar. A safra que deu certo infelizmente não chegou às mãos de Marcella, que faleceu em 2013. Tô a ponto de pedir pra alguém trazer.

 

 

 

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Comida e blablablá

O que aprendi nos três dias de Oxford Symposium on Food & Cookery?

– faz muito calor na Inglaterra

– embora o quartinho do alojamento fosse razoavelmente confortável, a arquitetura moderna de Arne Jacobsen, que foi quem projetou os prédios do St. Catz College, não foi páreo para o Saara Mood. Os inquietos ventiladores de chão eram tão xinglings quanto os que a gente encontra nas lojinhas da R. 25 de Março

– debaixo de tais temperaturas, qualquer tentativa de ser elegante resulta vã

– o mundo do conhecimento ainda se divide entre americanos entusiasmados e ingleses bibliófilos

– catalogar e reunir é o trabalho mais nobre de todos. Curiosidade nunca é demais

– não existe salmão selvagem no mundo, esqueçam o mito da pureza de uma vez por todas

– os foodies sem-noção dominarão a terra

– ninguém lembra da fome do outro

– quase ninguém fala de sexismo ou misoginia

– o Slow Food não deu certo no Reino Unido

– blogueiro que trabalha com jabá na Europa é marcado com o selo da vergonha. Há um código de ética no Reino Unido que exige a hashtag #sp (de “sponsored”, ou patrocinado) em postagens de produtos, viagens bancadas por marcas ou qualquer outro tipo de comunicação que envolva algum benefício financeiro. Ah, se a moda pega por aqui…

– o sucesso dos mangás de comida do Japão explica a pirâmide demográfica e o desinteresse dos japoneses em fazer sexo

– a TV nunca dará conta da complexidade das relações em torno da comida, diz Diana Henry, escritora e ex-produtora dos melhores programas de culinária da BBC e do Channel 4; o rádio dá conta sim, por incrível que pareça. The Kitchen Sisters, as produtoras independentes de programas sobre comida da NPR (estação pública de rádio dos EUA), representam o casamento mais feliz entre jornalismo e comida que existe

– a máfia italiana continua destruindo plantações inteiras de azeitonas e uvas no sul do país

– havia (e há) cadernos de receita feitos em campos de concentração, gulags e prisões de guerra

– o suplemento de comida do Los Angeles Times (que foi editado pela grande escritora Ruth Reichl nos tempos áureos) era chamado de “matador de cães” (dog killer), de tão pesado que era. Não faltavam anúncios. Saía com 72 páginas semanais

– há AINDA quem acredita que grupos étnicos que comem direto de bandejas, com as mãos, precisam ser ensinados a comer com garfo e faca. E que diga isso num microfone, publicamente, dentro de uma universidade

– Claudia Roden, Ann Willan, Barbara Ketcham Wheaton e Laura Shapiro existem. ❤

Os Pássaros

Quem é que liga para informação e notícia? Quem se importa em saber o que, como, onde, quando e por quê? É pra rir com esse monte de pergunta?

Nós leitores somos muito poucos, amigos.

Essa nuvem que prometia ser a biblioteca de Jorge Luis Borges não passa de ilusão. Que ninguém se iluda, eu não me iludo: é provável que nem ao menos cinco almas tenham entendido o que eu quis dizer com nuvem, biblioteca e Borges.

Não me venham com o papo do deixa disso. Vocês sabem muito bem que o que fazemos todos os dias é tudo, menos ler. Encaramos o azul do Facebook e suas aberrações em forma de texto escrito – um erro de português por linha, três erros de informação por frase. Não existe checagem, ninguém confirma, mas uma legião de maus leitores (#somostodos) acredita. Acredita? Até o sentido dos verbos precisa ser revisto. As pessoas curtem e compartilham, ironizam ou sacralizam, uma masturbação informativa diária e morta-viva. Tudo é opinião e nulidade, umbigo de fora e tristeza.

Degringolou rápido. O abismo criado por 20 anos de acesso à celular, geladeira, iogurte e plano odontológico, misturado a nenhum apreço pela educação, só podia resultar neste desastre falastrão e surdo. Ninguém entende o fluxo e o problema é sempre dos outros. Direto da minha janelinha de cadeia, apregoo que às segundas-feiras tem textão de Eliane Brum e de terça e quarta leio os cronistas espertinhos e engraçados, falando para um rebanho crédulo e sectário, verde-amarelo e vermelhinho. Meia dúzia de jornalistas é morta por mês no interior do país. Uma tribo de vigilantes prega entre os seus e para os seus. Não há diálogo nem na vida e muito menos na rede social, que direciona, como querem os algoritmos, os milhões de megafones para insones e distraídos.